11.11.13

Despertando...


"A cama por amar. A mulher serviu-se do corpo e nem o corpo se sentiu servido. O prazer é um produto corpóreo da imaginação. Estendeu-se e sentiu-se estendida, na cama em que todos os êxtases se vieram. E acreditou. Acreditar é um segundo de prazer. Quis estender a recordação, trazer de volta o que sabia que nunca, na verdade, fora capaz de ter. Imaginou-o no sítio de sempre e foi – respiração parada, como sempre. Sabia que não podia, sabia que não devia, sabia que nem ela a si o recomendaria. E acreditou que tinha tudo o que queria: a esplanada de sempre, a ausência de sempre, o nada ter de sempre, a desgraça de uma dependência de sempre. O prazer é um produto corpóreo da imaginação. Acreditar é um segundo de prazer. Não sabe se foi ele que correu para ela, não sabe se foi ela que correu para ele. Sabe que houve um abraço a meio do caminho – mas nem sabe (como saber o que só se sente?) qual era o caminho. Sabe ainda que ele não disse que a precisava, nem disse que a sentia como ela disse que o sentia. E sabe que aquilo, aquele nada dizer, aquele nada sentir, foi tudo o que precisou de ouvir, foi tudo o que precisou de sentir. Regressou à cama e aos lençóis e encheu-os de saudade em estado líquido. Não chorou mais do que o costume, não se quis mais dele do que o costume. E soube que a felicidade podia muito bem ser apenas aquilo: o homem defeituoso de sempre na realidade imperfeita de sempre."
Pedro Chagas Freitas

4 comentários:

(Ela) disse...

Caramba, que isto está para lá do que me apetecia ler hoje! :P

Beijo d'(Ela)

Vício de Ti disse...

Gostei! :) situações sempre familiares :)

Beijo :)

Sil Maria disse...

Acontecem a todos...
:)




Beijitos

Sil Maria disse...

Pois..... o texto é muito mais do que eu partilhei aqui, mas não consegui resistir!
:)





Beijo n' Ela